quarta-feira, 25 de abril de 2012

Condição de Momento Bom


A arte de ser quem sou
Uma vez por dia
Uma vez em eras
Liberta-me

O grito incontido
Feito expressão de cor e traço
Se torna canto belicoso
De mim para mim mesmo

Nessas horinhas
É como ouvir o voar das criaturas
Balançar-se à brisa
E ser isso prazer.

quinta-feira, 29 de março de 2012

E Você É...?

Sou isso, sou aquilo,

Mas no geral sou eu mesmo.

Relaxado, debochado, divertido, alegre,

Companheiro, veadinho, ranzinza, enjoado...

Vai saber?

Mas no geral, sou eu mesmo.

Não preciso de um corpo para ser, apenas vou sendo

O sexo, a biologia que se descabele tentando explicar

A psicologia que cometa suicídio tentando entender

Orlando que me abençoe, porque aí sim, fui contemplado.

Posso ser mãe, posso gerar um filho e dá-lo à luz,

Posso ser um insensível leitor matinal de jornais

Que não nota se o cabelo da consorte é loiro ou azul.

Posso ser a lágrima que escorre no rosto da pura

Donzela de vermelho à mercê dos desejos alheios,

Posso ser o músculo que se contrai no apertar de um gatilho.

E depois de tudo isso, que decido abreviar até aqui,

Já nem sei mais se sou eu mesmo

E olha a minha cara de quem está preocupado!

Enfim, e você... Quem é?

Estou sentindo um silêncio de espanto, e olhos esbugalhados...

Acho que pra variar, falei demais sobre mim mesmo.

Vamos ouvir um pouco sobre você,

Aposto que no fim, quem estará boquiaberto serei eu

E nessa coisa toda

Sei que nos identificaremos mais do que se fôssemos dois e dois

Somando um belo quatro.

O Melhor Desabafo Em 26 Anos

“Do pó viemos e ao pó voltaremos”

Foi o que me disseram num domingo desses.

Mas a sensação geral no turbilhão de infinitas coisas que me tomam

É que do pó eu vim e no pó estou.

A mesma sujeira que deixei em um prato,

Dos segundos que se contam do início ao término da limpeza

E da noção de tempo perdida em um dos milhares de caminhos

Ao nirvana, ao paraíso, à iluminação e por aí vamos.

Preguiça?

Sim, mas é claro! Enquanto houver humanidade

Haverá preguiça.

Mas ela é pouca, e quando no máximo é a mesma

Já velha conhecida. A verdade é que não tenho muita atenção a lhe dar.

Um som agudo me acorda no meio da noite, me faz desviar um pouco

A rota, eu em meu super veículo,

(Às vezes lento como uma nuvem, e rápido como um furacão)

Se eu o entendo, e não é bom,

Ponho-me a falar nem que seja comigo mesmo

Apenas para chegar a uma conclusão

De que do pó eu vim e que no pó eu estou.

Aí já vi demais!

Já passou da hora!

É quando perdi todas as vias que achara possíveis

De se trafegar

Terei novamente o trabalho de catar uma a uma

Exatamente como se catasse feijões (infinitamente)

Desse pé que nasce em qualquer canto.

Isso me faz lembrar que dessa vez estou determinado:

Do pó eu vim, no pó estou, mas ao pó não retornarei!

Mas... não estou certo se era sobre isso que eu falava mesmo, era?!

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

O Caso da Alimentação

A passarada veio
E comeu as migalhas e a serragem
Que eram meu corpo
Pesaram tanto que não conseguiram
Voar.
Isso não era alpiste!
Sinto muito!
Este era o amor que eu tinha,
Que vos destruiu.

Cinzas

No fim das contas
Não podemos ter tudo
Sempre há algo que se
Força a ser deixado
Por entre as moças congeladas
e as maçãs escoriadas...
há de se saber
Nós! Quando o Carnaval acabou
E tudo derreteu.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Viva Dama

Anabela estava sentada na varanda, olhando a rua. A vista mais que interessante, colorida, pouco usual, lhe proporcionava minutos de afago e aconchego, e como ela gostava das coisas pouco usuais! Perdida nas lembranças de um passado recente, e com suas mãozinhas frágeis, passava as páginas de um livro. Ela estava, na verdade, interessada em ser de grande utilidade para o mundo, estava insatisfeita. Anabela bordava panos de toda sorte, era sua arte. Dava vida a retalhos aleatórios de tecidos mortos, mas não se orgulhava disso nunca. Simplesmente encantadora às vistas, com seu vestido tropical longo e de caimento muito suave, era figura a quem muito comumente se pagava tributo. Seus olhinhos que revelavam constelações se faziam impressionantes aos reles aventureiros cujo verdadeiro valor de suas jornadas a eles próprios era um mistério.

Anabela recebeu uma flor, colorida como todas as suas cores. Essas cores brilhavam e suas bochechas ficaram de um vermelho que se destacou. Ela agradeceu a oferta e com muito amor se pôs a admirar o presente. Entre uma olhada e outra, podia-se perceber Anabela levando a flor ao rosto, tentando sentir seu lúdico odor, como se ninguém mais estivesse ali. O homem gentil, que conhecia muito bem os vértices do ser humano, percebeu os gestos de Anabela, e descobriu que o presente fora para si mesmo, ver a formosa moça tão contente deleitando-se com uma flor. Ele sorriu um sorriso lindo, e ela verteu lágrimas que lavaram o mundo, lágrimas que formaram uma cascata que foi capaz de desmanchar o homem e o tornar líquido, porque era o que buscava. E a profecia da libertação se cumpriu. Anabela conservou a flor por uns cem anos mais, junto a algumas coisas boas do mundo.

A Vida dos Pequenos Gatos

Entre um cochilo e outro com intervalos de dois minutos de um para outro, estavam dois gatos no meio da calçada, esperando a hora de retornarem para casa. Sua condição não dava muito tempo para que reagissem às hostilidades do mundo, como os famigerados carrapatos que os acuavam. Mas nessa noite tudo foi tranqüilo. Uriel e Julieu, parados, fitavam seus arredores e admiravam os gatos maiores, que diferente de sua graça, leveza e agilidade naturais, ostentavam porte, força física, e brilho aveludado da sua belíssima pelugem.

A espera foi longa porque o sol estava um pouco preguiçoso para amanhecer, e demorou muito mais a sair. Mas todos estavam atentos, era a mesma coisa de sempre, Miruel a tagarelar e Julieu a dormir, respondendo com apenas um miado cansado, ao ser questionado sobre alguma coisa. Todos os grandes felinos por ali passavam majestosos, com destino certo para onde quer que fossem. E isso contrastava muito com a fragilidade dos dois gatinhos. No entanto, suas resoluções não os permitiam ater-se a tais coisas por muito tempo, ao menos não conscientemente.

E finalmente, em um lindo espetáculo que lhes valeu a espera, já bem acordados — porque o bicho do incômodo lhes levara o sono de cochilar. Sete anjos vieram anunciar o novo dia a Miruel e a Julieu:
— Vistes? Como valeu a pena! — Miou animado Miruel, enquanto Julieu apenas contemplava a infinita formosura das divinas e imensas asas das criaturas celestiais.
Respirando daquela agradabilíssima atmosfera, os pequenos felinos foram envoltos pelas penas sagradas das asas dos anjos, que lhes tomaram nos braços e disseram:
— É de desconhecimento de muitos dos grandes gatos da Terra, que não deveis temer a areia da vida, porque sois vós também Deus em sua graça e magnitude.

Com regozijo sem igual, e um transe do qual jamais desejaram sair, Miruel e Julieu cantaram junto com os anjos. E quando o maravilhoso ritual da vida se cumpriu, tudo o que fizeram foi olhar uns aos outros, sorrir e partir com a certeza de que se havia feito a justiça em qualquer aspecto que se pudesse pensar. No outro dia, eles já não estavam lá.