quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

A Força dos Outros



O Que se fez então?
Cultos aos quatro ares!
Nem a si mesmo, nem hedonismo...
Parasitagem maldita!
Consome feito fome os braços e o esforço
Enquanto me ditas.
Piscina de ouros e paus,
Purulência que só seca quando um some.
Não há jeito de superar
Quando as sanguessugas estão para o jantar.

Corpo



O sexo desvenda
O sexo é fazenda
O sexo é rentável
Mas onde o sexo é vendável
O sexo sim, venda.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Outra do Leão e do Rato



O rei das florestas era arrogante, desdenhoso, temível, ameaçador. Desfazia-se de tudo e de todos como quem se desfaz da sujeira no corpo antes de lavar-se. “Hiena?! É uma ignóbil que ri-se por tudo e por nada.”. “O Cavalo... tão imponente e ao mesmo tempo herbívoro. Quem há de respeitar uma criatura assim?”. “Veado?! Quem é o Veado no ápice da meia-noite?!”. Até que chega àquele que mais gosta de escachar, o diminuto, humilde e submisso Rato. “Viver de sobras, foi ao que a natureza o destinou, a ser fraco, e não ter valor enquanto servo!”.

Um dia, vinha conversando consigo mesmo a decidir se rebaixaria o Rato à classe dos insetos — como se mandasse nisso também. Tateando o chão como quem estava a pisar nuvens, de peito cheio e cabeça erguida, o olhar em direção ao horizonte não o permitiu perceber bem o seu caminho, uma armadilha e pronto! Inicialmente, seu orgulho não o deixara pedir ajuda, mas quanto mais tentava escapar aos trancos, mais sua pata se machucava. Foi quando finalmente emitiu rugidos de socorro.

O cavalo arqueou a boca como se risse e trotou em direção oposta. O veado deu de ombros e saltitou rumo à colina mais próxima. A hiena... essa riu. O único leal o bastante para salvar sua Majestade era o Rato. “Vossa Majestade será salva!”, e então se pôs a roer as cordas com afinco e dedicação. Pouco depois as amarras que prendiam o Leão tinham sido rompidas. Assim que saiu delas, golpeou de maneira violentíssima o seu salvador e disse:
— Duas coisas. Uma que jamais me permitiria ser salvo por semelhante escória. E outra que não permitirei que saibam que me salvastes.
Em seguida engoliu vorazmente o Rato numa volúpia tão letal que a alma de sua presa pairou no ar por alguns instantes, separada de seu corpo, porém ainda viva. Com a voz a esmorecer e trêmula, ele perguntou:
— Por quê?
— Porque eu posso! — Respondeu imponentemente o Leão, enquanto se dirigia cabal de volta ao seu trono.
Moral da história: O Rato danou-se!

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Comoção

Passos e pegadas,
Marcas circulares de trajetos soltos,
Firulas e erosões...
Mas não olhei do alto do monte
Porque quando o fiz
Os olhos baixos e o movimento ascendente do pescoço
Anunciaram,
Foi areia o que vi.


terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Diana




Ela gostava de caçar,
Gritar às almas dos bosques: "Sou o terror!"
Purgava horas em meio
Aos pinhais...
Eles não estavam de brincadeira.
Entra temporada, sai temporada...
E ela não pode mais dizer que gosta de caçar.
Não depois do fogo cruzado.

O Escritor (Texto Introdutório)

O Escritor

Tudo ao que a pós-modernidade me relegou foi a ter um blog quase fantasma onde me expressava livremente. Mas dois enganos, um era sobre a expressão, às vezes bem, às vezes mal, tentava sem muito sucesso marcar de alguma forma minha passagem pelo novo esquema de notações íntimas. O segundo era a liberdade, tanto certa moralidade quanto o temor de que ela me causasse males mentais e/ou físicos, e sendo assim nunca pude afirmar que me era possível exprimir idéias, devaneios, sentimentos e afins livremente. O fato é que comecei isso tudo após sentir algumas dores e ler alguns livros e contos que me incentivaram a tal.

Pensei: “ora, vê este aqui. Um bom livro, numa editora qualquer, originalmente publicado no século dezenove, mas que graças a essa mesma editorazinha e aos meus impulsos de leitor o escolhi, e penso que através de sua obra e através de mim, o autor ganha vida novamente”. Foi ótimo divagar sobre as glórias de ser imortal, e foi esse anseio que me ligou imediatamente ao impulso da escrita, não foi outro senão o pensamento na morte. Mas dali a pouco pensei: “se o homem está morto desde dois séculos atrás, e se o leio hoje é realmente lisonjeiro, mas se ele vivesse de fato, ganharia algo com isso”. Eis o que ninguém me tirava da cabeça.

A falência na qual os escritores e pensadores mortos estavam bem acomodados, não me fazia muito sentido, porque foram usurpados nas raízes dos seus direitos, e o tempo só lhes era como um vilão caricato... dois séculos... isso era mesmo de se ressentir, tanto por eles, quanto por mim mesmo em qualquer antecipação esdrúxula de um vislumbre caquético de um futuro remoto. Pensei: “bom, talvez não seja o caso apenas ter um nome, a imortalidade que busco não é em si causa e consequência, é para além disso! Ela toca o outro gentilmente”. Não levou dois segundos e me veio à mente todas as gentilezas que recebi do mundo até então... “dane-se a gentileza, incomodar é preciso!”.

Mas esse altruísmo, vos confesso, pouco me convenceu e digo que quase certamente, pouco vos comove. Chegando a esta conclusão, movi-me de um estado de preocupação constante e letárgica com o nome, com o “eu” abstrato separado do “eu” concreto, e ouvi o que minha mãe disse “vá orar!”. Sem estranheza alguma, enquanto conversava com Deus nadava em todas as direções no fluxo de pensamentos novamente com ele, afinal de contas se sinto que posso dividir algo a fiel detalhamento é com um Deus. E depois de toda a rotina, de percorrer as vias sacras do egoísmo moderno tardio, me joguei na graça e logo que pude marquei um médico. Sem mais delongas aceitei me diluir no mar destes tempos. Aceito que não me lembrarão por mais de um mês através de meus escritos. Mas marquei logo o doutor, e chega de pensar, porque sábado à noite já tem folia!