quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Outra do Leão e do Rato



O rei das florestas era arrogante, desdenhoso, temível, ameaçador. Desfazia-se de tudo e de todos como quem se desfaz da sujeira no corpo antes de lavar-se. “Hiena?! É uma ignóbil que ri-se por tudo e por nada.”. “O Cavalo... tão imponente e ao mesmo tempo herbívoro. Quem há de respeitar uma criatura assim?”. “Veado?! Quem é o Veado no ápice da meia-noite?!”. Até que chega àquele que mais gosta de escachar, o diminuto, humilde e submisso Rato. “Viver de sobras, foi ao que a natureza o destinou, a ser fraco, e não ter valor enquanto servo!”.

Um dia, vinha conversando consigo mesmo a decidir se rebaixaria o Rato à classe dos insetos — como se mandasse nisso também. Tateando o chão como quem estava a pisar nuvens, de peito cheio e cabeça erguida, o olhar em direção ao horizonte não o permitiu perceber bem o seu caminho, uma armadilha e pronto! Inicialmente, seu orgulho não o deixara pedir ajuda, mas quanto mais tentava escapar aos trancos, mais sua pata se machucava. Foi quando finalmente emitiu rugidos de socorro.

O cavalo arqueou a boca como se risse e trotou em direção oposta. O veado deu de ombros e saltitou rumo à colina mais próxima. A hiena... essa riu. O único leal o bastante para salvar sua Majestade era o Rato. “Vossa Majestade será salva!”, e então se pôs a roer as cordas com afinco e dedicação. Pouco depois as amarras que prendiam o Leão tinham sido rompidas. Assim que saiu delas, golpeou de maneira violentíssima o seu salvador e disse:
— Duas coisas. Uma que jamais me permitiria ser salvo por semelhante escória. E outra que não permitirei que saibam que me salvastes.
Em seguida engoliu vorazmente o Rato numa volúpia tão letal que a alma de sua presa pairou no ar por alguns instantes, separada de seu corpo, porém ainda viva. Com a voz a esmorecer e trêmula, ele perguntou:
— Por quê?
— Porque eu posso! — Respondeu imponentemente o Leão, enquanto se dirigia cabal de volta ao seu trono.
Moral da história: O Rato danou-se!

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